Munique: meu natal na capital da Baviera

Hofgarten, em Munique. Foto de Adriano Donato Couto.
Hofgarten, em Munique. Foto de Adriano Donato Couto.

Olá!

Hoje eu gostaria de falar um pouquinho sobre a viagem que fiz à cidade de Munique (München, em alemão), capital da Baviera.

Quando se é novato em algum local, como é o meu caso aqui no Reino Unido, Natal e outras festividades são sempre um dilema. Ir ao Brasil somente para um feriado não é  uma das tarefas mais fáceis, então você tende a procurar seus amigos. Foi o que me fez optar por Munique!

Tenho alguns grandes amigos na cidade, que havia conhecido enquanto ainda trabalhava em Portugal. Foi a oportunidade ideal para matar a saudade de gente muito querida e ainda conhecer um local diferente, embora em um curto período de tempo.

A minha primeira surpresa ficou por conta do tempo de viagem: 1h45min. Me surpreendi quando vi que o voo seria tão curto, mas essa é uma realidade para a maioria dos deslocamentos dentro da Europa. De Londres para Lisboa, por exemplo, você gasta cerca de duas horas e meia.

O segundo ponto que me chamou a atenção foi o Aeroporto de Munique (em alemão, Flughafen München). Embora eu já tivesse sido alertado sobre quase todo o comércio estar fechado, o silêncio no aeroporto me surpreendeu. Mesmo em áreas onde havia alguma coisa aberta, os alemães são muito silenciosos.

Um ponto positivo do deslocamento até o centro da cidade (o aeroporto fica distante) é a possibilidade de se deslocar de trem até a Estação Central de Munique (em alemão, München Hauptbahnhof). Para isso, baste se dirigir ao serviço de Stadtschnellbahn (ou S-Bahn, o serviço de trem suburbano). Ele é representado pela letra “S” nos mapas do transporte. Para o centro da cidade, procure pelas linhas S1 e S8.

Um ponto a levar em conta é que não há cancelas ou catracas nas estações, logo, tome cuidado para não entrar em áreas pagas e levar multa. Você deve comprar o bilhete com antecedência e mantê-lo com você durante toda a viagem. No aeroporto, as máquinas ficam perto de um café, ali mesmo nas proximidades das escadas que levam à estação de trem. O custo fica entre 11 e 13 euros, dependendo do tipo.

O restante do trajeto pode ser feito nos serviços de metrô (U-Bahn, ou Untergrundbahn), representados com a letra U.

Não se preocupe! No geral, os serviços de transporte são bem simples de usar e você tem o primeiro trecho, entre aeroporto e a cidade, narrado e escrito geralmente em inglês e alemão.

Passando a primeira noite (véspera de natal), saí um pouquinho no dia 25/12 e, como já esperado, a temperatura beirava o negativo, com um vento bem forte.

O que se percebe logo de cara é a beleza da cidade, que alia prédios novos e antigos (e bem conservados), sempre com ruas muito limpas. Desconsidero aqui as bitucas de cigarro, que são vistas aqui e ali (como no mundo inteiro).

À esquerda, a HVB-Tower, pertencente ao HypoVereinsbank (banco de lá); à direita, o Feldherrnhalle, construção na Odeonsplatz. Fotos de Adriano Donato Couto.
À esquerda, a HVB-Tower, pertencente ao HypoVereinsbank (banco de lá); à direita, o Feldherrnhalle, construção na Odeonsplatz. Fotos de Adriano Donato Couto.

O início do passeio foi para comer uma boa comida italiana. Era um dos poucos restaurantes abertos no dia de natal, mas valeu a pena. Comida deliciosa! O preço era bacana também. Se quiser a dica, basta ir ao Vapiano da Richard-Strauss-Straße (Straße é rua em alemão).

Foi desse restaurante que avistamos a HVB-Tower, prédio bem bonito que uso na imagem acima como comparativo entre novo e velho na cidade.

A próxima parada foi a Odeonsplatz (platz, em alemão, é praça). É ali que fica o Feldherrnhalle, construção muito linda, ornada, com leões e outras esculturas. Foi construído entre 1841 e 1844. Anos mais tarde, serviu como local para o Bürgerbräu-Putsch ou Hitlerputsch (em português, conhecido como Putsch de Munique/da Cervejaria), conflito que ocorreu entre 8 e 9 de novembro de 1923, marcando a derrota do Partido Nazista contra as forças da Baviera, tentando derrubar o controle da região.

Pertinho dali, pude conferir a Marienplatz (lembre-se do sufixo -platz), ou Praça de Maria, que possui uma torre de relógio lindíssima, a Rathaus-Glockenspiel, com diversas estatuetas retratando cenas de histórias típicas dali. O movimento da estatueta, com música, ocorre todos os dias às 11 da manhã. Dura cerca de 15 minutos. Infelizmente, não consegui visitar no horário do show, mas espero retornar! 🙂

Essa torre faz parte do prédio “novo” da prefeitura, tendo sido construído em 1908.

Marienplatz, com Rathaus-Glockenspiel ao fundo. Foto de Adriano Donato Couto.
Marienplatz, com Rathaus-Glockenspiel ao fundo. Foto de Adriano Donato Couto.
Rathaus-Glockenspiel em detalhe. Foto de Adriano Donato Couto.
Rathaus-Glockenspiel em detalhe. Foto de Adriano Donato Couto.

Há ali em volta também o Altes Rathaus (algo como “Antiga Sede Municipal”, em alemão), prédio antigo da prefeitura. Foi construído entre 1392 e 1394.

Logo ao lado, se você gosta de superstições, dá para ver também uma estátua da Julieta, com seus seios gastos devido ao ritual de turistas que ali chegam. Conto um pouco sobre isso no texto sobre a visita que fiz à Verona em 2017, que você pode conferir aqui.

A partir dali, fomos para casa e nos preparamos para o dia seguinte.

No dia 26, saímos em direção ao Siegestor (Arco da Vitória), construído entre 1843 e 1852 por Friedrich von Gartner, encomendado pelo Rei Ludovico I da Baviera.

Siegestor, Munique. Foto de Adriano Donato Couto.
Siegestor, Munique. Foto de Adriano Donato Couto.

A palavra “Love”, escultura de Mia Fiorentine inserida em ambas as fazes do arco, é um ambigrama. De um lado, de vê “Love” (amor) em letra cursiva. Olhando-se pela outra face da escultura, aparece “Hate” (ódio).

Nas proximidades, pude visitar a Ludwigskirche (em alemão, Igreja de São Ludovico), que foi inaugurada em 1844. Aqui, vale mais uma dica: kirche é igreja em alemão.

Com seu telhado desenhado com telhas em azul e amarelo, a igreja é ainda mais bela por dentro.

Interior da Ludwigskirche, em Munique. Foto de Adriano Donato Couto.
Interior da Ludwigskirche, em Munique. Foto de Adriano Donato Couto.

Saindo dali, passamos pelo Hofgarten, parque que faz vizinhança com o escritório do governo da Baviera. Vale a visita!

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Após passar por ali, passamos em frente ao Haus der Kunst, museu cujo prédio é muito bonito. Como era dia 26 de dezembro (feriado na Alemanha), ele estava fechado, então seguimos para o destino que estávamos procurando: Eisbachwelle. Naquele local, fica uma suposta falha de engenharia, que criou uma formação em “U” no leito canalizado do rio, gerando ondas. Com isso, o local atrai diversos surfistas, que precisam se revezar no local (só é permitido uma pessoa por vez nas águas).

Além dessa “falha de engenharia”, vale a pena visitar o parque onde ela está localizada. Englischer Garten, como o parque é chamado, é enorme! Abriga trilhas de bike, monumentos e eventos, como um mercado de natal. Foi criado em 1789, a partir da ideia de Benjamin Thompson.

Saímos do parque e seguimos de ônibus até onde nosso estômago pedia: Hofbräuhaus. Talvez a mais famosa cervejaria entre tantas de Munique, o local abriga placas de famílias tradicionais que já frequentaram o local. Mesmo hoje, como informa o site do estabelecimento, há muitos clientes regulares por lá.

Com dezenas de mesas, o estabelecimento serve o famoso joelho de porco, tradicional na cozinha alemã, mas também muitas outras opções típicas. A cerveja, como manda a cultura alemã, vem em canecas enormes, de 1 litro.

Hofbräuhaus. Foto de Adriano Donato Couto.
Hofbräuhaus. Foto de Adriano Donato Couto.

O estabelecimento foi construído por volta de 1589 pelo Duque Bávaro Maximilian I, sendo originalmente não acessível ao público. Hoje, a fabricação da cerveja não ocorre mais ali.

O teto do primeiro andar é lindíssimo, repleto de símbolos típicos dali.

Uma parte triste da história do local é o fato de que já teve entre seus frequentadores Adolf Hitler.

É justamente ali que o Partido dos Trabalhadores Alemães (posteriormente, nomeado Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães) sediou vários de seus eventos, inclusive a comemoração anual da fundação do órgão. Isso geralmente ocorria no terceiro andar do prédio.

Foi justamente ali, durante o primeiro grande evento oficial do partido de Hitler, que o futuro líder nazista apresentou o Programa dos 25 Pontos, que guiaria o partido a partir de então.

Foi também nesse lugar, em 15 de agosto de 1920, que Hitler proferiu seu discurso de justificativa da perseguição aos judeus, chamado “Por que Somos Antissemitas” (do alemão, Vierteljahrshefte für Zeitgeschichte).

Curiosidade: Em 2015, o estabelecimento abriu uma filial em Belo Horizonte (MG), sendo a primeira filial na América Latina, conforme noticiado aqui.

Por último, fomos até a Frauenkirche, Igreja de Nossa Senhora, cuja construção se iniciou em 1468. Suas torres foram adicionadas em 1488, com os domos chegando apenas em 1525.

Apesar de ser a catedral de Munique, um fato curioso é talvez seu detalhe mais famoso: a pegada do demônio.

Sim! A história conta que o arquiteto Jörg Von Halsbach, por falta de orçamento ou por cronograma atrasado, se viu obrigado a fazer um pacto com o diabo para construir a catedral.

A condição do “Coisa Ruim” era algo nesse sentido: “Te ajudo a construir a igreja, mas esta não poderá ter janelas. Caso contrário, sua alma será minha.”

A condição do diabo era por uma razão particular: segundo a história, se a igreja não tivesse janelas, a luz divina não poderia entrar.

Após 20 anos, um prazo assombrosamente curto, a catedral estava pronta e o diabo veio até a entrada do local, já que ele não conseguia entrar em um local sagrado.

De onde ele estava, as colunas estrategicamente posicionadas em fileira até o altar impossibilitavam a vista das janelas. O altar, com seu retábulo, também ocultava um vitral enorme ao fundo.

Com isso, o diabo teve a falsa ideia de que seu pacto havia sido cumprido, poupando a alma do arquiteto.

No local, até hoje há a marca de onde o diabo pisou com força, frustrado pela alma não convocada.

Pegada do diabo na Frauenkirche. Foto de Adriano Donato Couto.
Pegada do diabo na Frauenkirche. Foto de Adriano Donato Couto.

Outra parte interessante é a tumba do Imperador Ludovico IV da Baviera, feita em mármore preto, cercado de alguns soldados ajoelhados e outras esculturas.

Tumba do Imperador Ludovico IV da Baviera, na Frauenkirche, em Munique. Foto de Adriano Donato Couto.
Tumba do Imperador Ludovico IV da Baviera, na Frauenkirche, em Munique. Foto de Adriano Donato Couto.

E por hoje é só!

Munique deixou saudades e quero muito visitá-la novamente, desta vez com mais tempo.

Arrivederci! 🙂

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