Trabalhar no exterior: o que avaliar antes de aceitar uma oferta

Photo by Slava Bowman on Unsplash.
Photo by Slava Bowman on Unsplash.

Olá!

Como muitos de vocês devem saber, estou há quase um ano no exterior.

Não saí do país por conta de algum trauma que tenha sofrido no Brasil ou mesmo por qualquer problema mais grave, mas porque fui localizado por um recrutador, avaliei a proposta e decidi participar do processo e aceitar.

No começo, trabalhei em uma empresa em Portugal. Depois de um período, porém, decidi aceitar uma outra oferta e me mudar para o Reino Unido, meu local atual.

Ambas as experiências foram muito enriquecedoras, mas percebi com o tempo que a minha situação não era a realidade geral. Há, sim, muitos brasileiros que saem do Brasil e passam raiva com empresas do outro lado da fronteira.

Por conta disso, quero hoje citar alguns pontos importantes para aqueles que queiram aceitar alguma proposta do exterior – ou mesmo se mudar para outro país e procurar emprego já estando no destino.

Documentação

Não adianta aceitar uma oferta ou se mudar para outro país se você não tiver ideia de como funciona a permanência no destino para cidadãos com a sua nacionalidade.

No meu caso, foi um pouco mais simples, já que sou italiano e brasileiro, então possuo livre circulação na União Europeia. O único procedimento mais burocrático em Portugal quanto à residência foi para o Certificado de Registo de Cidadão da União Europeia (sim, lá se diz registo, sem o “r“).

Em todo caso, antes de sair do Brasil, verifique a documentação para duas etapas:

  • Antes de sair do Brasil
    • É necessário visto para trabalho?
    • Qual a documentação necessária para a emissão do visto?
    • Quais os outros documentos que devo ter em mãos para apresentar no controle de imigração do destino?
    • Quais documentos brasileiros devo ter comigo? Dica: se for para Portugal, é bom levar tudo. Eles pedem o CPF e o PIS, por exemplo, pois têm acordo com o Brasil para tempo de contribuição com a previdência.
  • Depois de chegar ao país de destino
    • Quais documentos precisarei emitir nos primeiros dias e quais os dados exigidos para isso?
    • Quais dados a empresa precisa me apresentar antes, durante e após a contratação?
    • Qual a responsabilidade da empresa em relação aos documentos a serem emitidos?
    • Quais os prazos para cada item da lista?

Direitos e deveres do trabalhador

Assim como no Brasil, cada lugar possui sua legislação para relações de trabalho, seguridade (em Portugal, segurança) social e aposentadoria.

Em Portugal e alguns outros países da Europa, tem-se uma legislação um pouco mais paternalista em alguns aspectos.

Portugal já foi mais paternalista, mas implementou uma série de reformas devido às crises financeiras mais recentes no mundo todo.

Se você quiser saber um pouco mais sobre os direitos trabalhistas em Portugal, acredito que esse texto poderá ser um bom ponto de partida.

No Reino Unido, as regras são bem menos assistenciais, geralmente não se recebe salário extra para as férias ou no fim do ano e “férias pagas” significam apenas que os dias que você estará fora do trabalho não serão descontados do salário habitual.

Em resumo, você deverá procurar informações pelos seguintes itens (mas não se limite apenas a eles):

  • Qual o esquema de pagamentos no país? A empresa está seguindo corretamente o procedimento da lei? Eles estão usando itens obrigatórios por lei como “diferenciais” no anúncio da vaga?
  • Há pagamento de férias, subsídio de natal ou algum outro valor extra?
  • Qual a provável carga tributária a que sua faixa salarial será submetida?
  • Quais obrigações fiscais deverá cumprir?
  • Quais os procedimentos em caso de afastamento por doença, licença-maternidade/paternidade e outros tipos de licença?
  • Quais regras para o período de experiência?
  • Qual o tempo mínimo de permanência (sem multa ou ressarcimento de custos para a empresa) e quais os procedimentos para o desligamento?
  • Há surpresinhas no contrato? Leia tudo!

Serviços públicos e qualidade de vida

Tão importantes quanto os itens anteriores, os serviços públicos disponíveis e a qualidade de vida média do país também devem ser levados em conta.

Diferente do Brasil, serviço público e serviço gratuito não são obrigatoriamente equivalentes. Você poderá ser cobrado para usar serviços de saúde, por exemplo.

Nota: Quando falo isso, obviamente, não estou avaliando a qualidade dos serviços públicos no Brasil, que varia muito de região para região.

Apesar de geralmente ser uma taxa aceitável, o custo pode pesar no orçamento de algumas famílias caso apareça algum imprevisto.

Mesmo que seja gratuito, pode ser que os serviços de saúde e/ou educação no destino não sejam tão bons ou que seja necessário complementá-los com um plano de saúde ou cursos extras para os filhos, por exemplo. Avalie tudo!

A qualidade de vida também deve ser levada em conta. Fatores como nível de segurança das ruas, padrão mínimo de qualidade de produtos e leis de proteção ao consumidor afetam o seu dia a dia e podem tornar a experiência mais ou menos agradável.

As opções de transporte público funcionam bem? E o trânsito?

Custo de vida

Nessa questão, vale observar tudo que direta ou indiretamente pode afetar o seu orçamento.

Se você já calculou o quanto terá descontado do seu salário todo mês e quais serviços terá ao seu dispor, avalie o que você precisará desembolsar para os seguintes itens (e não só eles):

  • Supermercado;
  • Transporte público ou carro;
  • Despesas com educação, contando com material didático e cursos complementares;
  • Despesas com saúde, envolvendo ou não os planos privados;
  • Gasto médio com as contas de consumo residenciais: água, luz, telefone, internet, gás (aquecimento da casa e/ou preparação de alimentos), taxa de serviços, impostos e etc;
  • Aluguel; e
  • Opções de financiamento residencial/de automóvel.

Para calcular os itens acima, pode ser válido consultar pessoas que já morem na região e que tenham um padrão parecido com o seu. O seu potencial novo empregador, aliás, pode te ajudar a encontrar pessoas que consigam fornecer estas informações.

Uma outra opção para levantar esses dados são grupos no Facebook de brasileiros que vivem ali. Há versões para os mais diversos destinos e as comunidades costumam ser muito ativas.

Acolhimento a imigrantes

Pode parecer um termo distante, mas você precisa internalizar que a partir do momento da documentação preparatória já será, para o país de destino, um imigrante.

Sendo assim, você geralmente terá alguma burocracia a mais para muitas das relações que terá com o poder público de lá.

Verifique a postura do país com imigrantes, se eles acolhem bem comunidades internacionais e se existem muitas pessoas de outros países por lá.

Mesmo na Europa, que costuma ser receptiva para o trabalho de estrangeiros, há países que são bastante fechados e reticentes quanto à entrada de “forasteiros” em seu mercado de trabalho ou na comunidade em geral.

Outro fator é em relação à cultura do país para com mulheres, LGBTs, negros e outras minorias. Dependendo do país de destino, se você se encaixa em algum desses grupos, isto poderá ser fator discriminatório.

E se eu quiser retornar?

Parece estranho: você nem foi e já estamos discutindo sobre o retorno?

—Sim, e posso te explicar o motivo.

Você chega ao país, emite documentos, contribui com impostos, recebe seu salário e, de repente, não quer mais morar ali. E agora?

O problema é que nem sempre é só pegar um voo para o próximo destino e se esquecer do país que até agora você chamava de casa.

Você pode ter que declarar sua saída, fazer algum balanço de imposto de renda, cancelar contas bancárias, cancelar algum documento e mais uma série de outras burocracias típicas de quem quer terminar o “namoro” com algum país.

Fique atento a isso. Ao contrário do que muitos imaginam, valores a serem pagos e pendências com o poder público podem sim te seguir até o novo destino e nunca é uma boa ideia criar problemas desse tipo.

Na dúvida, se você não está mais satisfeito com seu nem tão novo lar, pesquise sobre os procedimentos de saída e resolva tudo com antecedência. É sempre mais barato e tranquilo!

E é isso! Espero que este texto tenha jogado alguma luz sobre seus planos de mudança, atuais ou futuros. Te desejo toda sorte do mundo!

A nova aventura trará stress, surpresas e burocracia, mas pode ser muito enriquecedora. Se prepare e pé no caminho!

Arrivederci! 🙂