Se eu estou onde estou, foi porque eu mereci! Analisando privilégios

Photo by Andy Falconer on Unsplash.
Photo by Andy Falconer on Unsplash.

Olá,

Seguindo o mesmo espírito do post da semana passada, gostaria hoje de refletir com vocês sobre um tema que eu creio que todo cidadão deveria analisar: privilégios.

Na atual polarização do Brasil, não adianta: é falar em privilégios que o povo torce a cara, se estressa e enumera as inúmeras batalhas cotidianas que foram necessárias para chegar onde está hoje (ou onde pretende chegar).

O problema é que a gente precisa olhar não só para dentro, mas também para à nossa volta.

Quando trabalhava no Brasil, por exemplo, eu me pegava analisando um pequeno detalhe nas empresas de TI: quantos negros existem nos cargos equivalentes aos meus? A resposta não é difícil de conseguir, mas é bem difícil de engolir, de tão indigesta: quase ninguém.

Ao mesmo tempo, olhava para os cargos pouco remunerados e fazia a mesma análise: qual o recorte étnico dessas profissões mais braçais, tipicamente (e injustamente) mal reconhecidas no Brasil? Na maioria dos casos, uns 70% de negros e outras variações que fujam do tipo “moreno claro” ou branco.

Aí, meu caro leitor ou leitora, a gente automaticamente pode se questionar: eu nasci em família humilde, no interior do país, estudei em escola pública, fiz graduação pelo ProUni, mestrado com bolsa e só então fui para o meu primeiro emprego na área de formação, já remunerado de forma mais decente. Diante disso, que culpa eu tenho? Lutei bastante pra alcançar um espaço no mercado de trabalho e certo conforto.

Pois é…

A questão de quando se analisa privilégios não é se alguém padrão e de bem* lutou para chegar onde chegou, mas o quanto os demais membros da sociedade precisam se esforçar além disso para conseguir o mesmo espaço.

Peguemos, para facilitar, o meu exemplo:

Cresci no interior de Minas Gerais, Zona da Mata, em família baseada na zona rural do município. Minha mãe era bordadeira; meu pai, vendedor de leite. Ele acordava todos os dias por volta das 3 ou 4 da manhã, ordenhava as vacas do meu avô e saía vendendo leite de porta em porta, fiado, nas ruas de Muriaé-MG.

Estudei em escola pública até o Ensino Médio, não tinha acesso a tantas atividades culturais fora da escola, o lazer não saía das visitas aos meus avós na roça e ir à mesma lanchonete de um bairro vizinho com meus pais todo sábado.

Para conseguir um bom emprego, fiz graduação e mestrado, como disse acima, com bolsas.

Uma vida comum, de família simples, que traz consigo uma carga maior do que o rapaz da classe média alta de São Paulo-SP, que já visitou toda a Europa antes dos 18 anos e nunca pisou em escola pública.

Sou quase um mártir então, certo? Erradíssimo!

Vamos adicionar alguns ingredientes bem brasileiros e tentar perceber onde quero chegar com isso:

José* é negro, cresceu em uma favela entre tantas das capitais brasileiras, foi criado apenas pela mãe, que é desempregada e faz doces para sustentar a ele e seus outros quatro irmãos.

O pai, infelizmente, sumiu no mundo quando as coisas apertaram. Ele nem mesmo se lembra do rosto deste senhor.

José até tenta estudar, mas sempre trabalhou. Atualmente, com seus 15 anos, já acumula 5 anos como ajudante em diversos empregos, seja como de lavador de carros, vendedor de balas ou engraxate.

Ele já viu morrer uma quantidade sem fim de amigos em conflitos entre policiais e traficantes, já foi abordado e averiguado pela polícia duas vezes só na semana passada e sonha em ser médico e ajudar sua comunidade, mas o trabalho era de jornada longa e não sobrou tempo para terminar o Ensino Médio.

As duas histórias são legais, mas percebeu alguma diferença?

A principal delas, meu caro leitor, é o abismo social do Brasil, que divide de forma violenta e inescrupulosa  os cidadãos por cor da pele, religião, orientação sexual, identidade de gênero, gênero e região onde você foi criado.

E não classifica para promover políticas públicas, mas porque é assim que o modelo de sociedade funciona hoje. É como se tivesse um imenso checklist com diversas características fora de padrão. A cada item que você completar, mais um degrau de distância na escada para uma vida digna e acesso a oportunidades adequadas.

O principal desafio que temos pela frente em 2019 no Brasil, meu amigo (ou minha amiga) de leitura, é como proporcionar igualdade de oportunidades para todos.

Isso passa por uma série de fatores (mas não só por eles):

  • Saneamento básico, coleta de lixo, varrição de rua ,bancos e demais itens de infraestrutura e serviços nas periferias, onde hoje muitas vezes reina o poder paralelo do crime.
  • Seleção para trabalho que não considere raça, gênero, orientação sexual, identidade de gênero, religião, idade e região de moradia como fatores de seleção/exclusão de candidatos.
  • Educação básica de qualidade, que ofereça a todos as ferramentas essenciais para perseguir seus sonhos, seja em uma graduação, no ensino técnico ou como um empreendedor local.
  • Segurança pública mínima, onde uma mulher, por exemplo, não tenha que ter medo de andar sozinha por conta dos altos índices de violência sexual do país.
  • Saúde que não mate pessoas por conta do descaso. É muito triste ver uma pessoa com doenças perfeitamente tratáveis no século XXI ser assassinada pelo Estado por falta de atendimento.
  • Voz na política, nas instituições públicas, nos meios de comunicação e na sociedade em geral para todos e todas, independente de qualquer característica pessoal.

Eu sei, colega de cafezinho, que a gente analisa os amigos do lado, vê a dificuldade deles e começa a pensar: o que posso fazer para que isso não seja mais realidade?

A primeira resposta, creio eu, passa pelo ato mais óbvio em uma democracia: vote direito, acompanhe os eleitos e cobre de cada um deles.

É clichê, eu sei, mas a maioria de nós nem mesmo se lembra do nome do candidato em quem votou nas últimas eleições.

Depois disso, outro fator que serve de bom início é parar com a falácia de que a meritocracia é a única responsável pelo sucesso das pessoas.

É errado e cruel defender meritocracia pura e simples em um país como o Brasil.

A meritocracia existe, é verdade, mas ela só pode ser considerada quando todo mundo iniciar a corrida do mesmo ponto de partida. Não adianta falar que Fulano ganhou por conta do esforço pessoal na corrida de 100 metros livres da vida se a colega do lado tinha obstáculos e salto em distância no percurso.

E é isso…

Arrivederci! 🙂

P.S.:

  • Cidadão de bem: um dos piores termos que já inventaram. Cidadão de bem, em sua essência, é aquele que segue as leis, respeita os demais e age de acordo em sociedade. Na atualidade, porém, se tornou mais um clichê classificatório para famílias brancas, cristãs e alinhadas com a moral vigente. Tem muito mais cor e variedade no mundo!
  • José, neste texto, era só um nome comum, para servir de exemplo. Ele poderia ser Adriano, Enzo, João, Maria, Eduarda, Jennifer ou qualquer outro nome.
  • O título do post faz referência ao meme da Barbie Fascista, mas também existem vários outros memes que exploram o mesmo tema, como o recente caso da Bettina.

Publicado por

Adriano Donato Couto

Ítalo-brasileiro nascido em Minas Gerais, morando atualmente em Londres. Desenvolvedor de software. Italo-brasiliano nato a Minas Gerais. Abito attualmente a Londra. Sviluppatore di software. Italian-Brazilian that was born in Minas Gerais (Brazil). Living in Londron currently. Software developer.

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