Qual a nossa parcela de culpa no avanço da anticiência?

Photo by Thomas Kelley on Unsplash.
Photo by Thomas Kelley on Unsplash.

Olá!

Hoje eu gostaria de conversar com você, que por algum motivo caiu aqui no blog, sobre algo que tem me preocupado bastante: o avanço do ceticismo em relação à ciência.

Nos últimos anos, é notório o fortalecimento de movimentos antivacina, em defesa da terra plana, que contestam as Ciências Humanas, que atacam as Artes e que criam no Brasil teorias radicais contra as universidades (principalmente as públicas), escolas e, mais do que nunca, contra os professores.

 

Mas qual seria a causa?

Pois é… A questão aqui é que o avanço desses movimentos, como tudo na sociedade, parece mais um complexo sistema de causas para um mesmo efeito, envolvendo vários fatores diferentes. Não há resposta única!

Tentando aqui oferecer ferramentas para iniciar nossa conversa, arrisco em apontar alguns fatores que podem ter colaborado para o problema.

Religiosidade x ciência

A religiosidade (ou não crença) de um povo é fator importante para a construção de sua cultura, sua moral e seus valores de um modo geral. Apesar disso, se a religião não se distanciar do Estado e de suas instituições educacionais públicas, tem-se um cenário em que a ciência perde espaço e o país se pauta puramente por valores morais/religiosos em campos como a saúde, a educação e a segurança pública, por exemplo. Pode parecer algo natural, mas é muito danoso. Estado e Igreja jamais devem ser um só ou mesmo emaranhados entre si!

Educação básica deficitária

Em um país como o Brasil, a educação pública a nível básico (para crianças e adolescentes) tem pouca qualidade e vem enfrentando ataques e enfraquecimento nos recursos investidos há décadas. Por mais que algumas pessoas pensem que isso é um descaso, é mais um projeto de poder.

Educação deficitária faz com que o povo pense e questione menos, sendo muito mais frágil diante de injustiças, corrupção e atitudes antidemocráticas. O efeito manada aqui fica potencializado como nunca.

Distanciamento entre ciência e sociedade

Durante o mestrado, pude perceber como a pesquisa científica no Brasil é produtiva, mesmo com orçamentos cada vez mais precários. O que se produz nas pesquisas, porém, seja a nível nacional ou internacional, muitas vezes não é transmitido à sociedade de forma simples e didática.

Dessa forma, a gente acaba por criar uma barreira entre a sociedade e centros de pesquisa. E isso é ainda pior nas Ciências Humanas e nas Artes. Muito além da discussão do que seria ou não ciência, estas são áreas que não geram um retorno palpável para a sociedade, sendo muito mais algo que molda o povo e políticas públicas.

Se não é fácil descobrir o efeito disso na economia, é claro para os acadêmicos que isso embasa muitas das iniciativas governamentais e da sociedade civil posteriormente, gerando impactos sociais, econômicos e culturais.

Seja nas Ciências Humanas, Biológicas, Exatas ou em qualquer outra classificação possível, porém, o desafio permanece: como eu apresento o que produzi para a sociedade?

Depender apenas da imprensa, infelizmente, não é viável. Por mais que uma imprensa livre e produtiva deva ser incentivada, ela ainda será, em certo modo, também uma atividade econômica. Os veículos que ela engloba não serão jamais capazes de divulgar de forma ampla a ciência, seja por orçamento limitado ou pouca popularidade de alguns campos de pesquisa. Se não gera lucro, fica pra depois.

Internet “sem lei”

Aqui entra talvez um dos pontos mais polêmicos atualmente.

A internet é um meio fantástico e a liberdade de informação que corre nela pode até derrubar governos, mas há uma certa sensação de impunidade ou anonimato em muita gente.

Multiplicam-se na internet os grupos de discussão e promoção de movimentos antivacina, defesa da teoria da Terra plana e vários outros grupos que defendem conceitos contra tudo o que o conhecimento científico vigente prega.

Outra potencial fonte de conteúdo anticiência são as fake news. Elas já inflamaram disputas eleitorais, incendiaram discussões na internet e podem também, infelizmente, enfraquecer a imagem da Ciência, das escolas, de professores e de tudo que foge ao que o cidadão médio pode não compreender em um primeiro instante.

E agora?

Diante dos itens que eu citei, que não são as únicas prováveis causas do advento da anticiência, mas que são aqueles que eu acredito serem os principais, ficam alguns pontos importantes em aberto:

  • Como nós; entre cientistas, estudantes, professores, profissionais e demais grupos em prol do saber e da pesquisa científica; podemos reverter esse movimento?
  • Como quebrar as barreiras da polarização irracional e iniciar discussões positivas, que gerem aprendizado de todos os lados?
  • É realmente possível reverter radicalismos que afetem a sociedade e trazer as pessoas para uma discussão saudável e embasada?

E você, o que acha disso tudo?

Arrivederci! 🙂

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Publicado por

Adriano Donato Couto

Ítalo-brasileiro nascido em Minas Gerais, morando atualmente em Londres. Desenvolvedor de software. Italo-brasiliano nato a Minas Gerais. Abito attualmente a Londra. Sviluppatore di software. Italian-Brazilian that was born in Minas Gerais (Brazil). Living in Londron currently. Software developer.

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