Cambridge: roteiro de um dia e dicas extras

St John's College, Cambridge. St John's College, Cambridge.

Como muitos de vocês já devem saber, eu moro em Londres há quase um ano.

Neste tempo, por incrível que pareça, viajei mais para cidades de outros países da Europa do que de dentro do Reino Unido.

Pensando nisso, comecei a perguntar para alguns dos amigos e colegas sobre cidades que eu deveria conhecer por aqui e montei uma listinha. A partir de agora, portanto, você deve começar a ver mais conteúdo sobre cidades próximas da capital britânica, por exemplo, mas sem deixar de ver coisas de outros países.

Como pontapé inicial, acho que Cambridge é uma excelente opção!

Cidade universitária, com arquitetura muito interessante. Em parte, devo ser sincero, sua arquitetura se reflete na vocação acadêmica. As catedrais, as faculdades (ou colleges),  pubs e demais estruturas vêm da vocação estudantil que moveu a cidade para uma posição de destaque no mundo no passado e atualmente.

 

O que visitei

O passeio começou dando uma volta pela Downing College. Apesar de menos pomposa do que as faculdades mais famosas de lá, possui uma ampla área gramada e construções interessantes. A entrada é livre.

A próxima parada foi a Saint Andrew’s Street Baptist Church, templo de 1903, com suas paredes todas cobertas de pedras cinzas. Antes deste, o primeiro templo construído no local data de 1764.

Saindo dali, o destino foi a Christ’s College. O charme desta faculdade já começa pelo portal todo ornado em verde ou dourado, com duas figuras de animais (provavelmente cordeiros).

Christ's College, Cambridge.
Christ’s College, Cambridge.

Passando pela entrada, um jardim com várias portas ornadas com motivos semelhantes. A partir dali, porém, muitas das áreas pareciam ser de acesso restrito.

ℹ️ Curiosidade: foi nesta faculdade que Charles Darwin estudou.

Nosso ponto de atenção foi, então, para uma das mais famosas entre as faculdades de Cambridge: King’s College.

King's College Porters' Lodge, entrada para King's College, impressiona os visitantes.
King’s College Porters’ Lodge, entrada para King’s College, impressiona os visitantes.

Por ser uma das mais visitadas, existe a opção de entrada sem ser estudante, mediante pagamento de uma taxa no valor de 9 libras, que você pode adquirir no King’s College Visitor Centre, logo em frente, ou online.

O ingresso dá direito a uma visita também à capela, King’s College Chapel, uma igreja muito bonita. O que mais impressionou por lá foi o teto, repleto de detalhes entalhados, além dos trabalhos em madeira. O órgão gigante por cima de uma passagem no meio da igreja também é impressionante.

A King's College Chapel é riquíssima em detalhes. A imponência do órgão, cuja face mais detalhada não vemos na foto, é outro ponto alto do local.
A King’s College Chapel é riquíssima em detalhes. A imponência do órgão, cuja face mais detalhada não vemos na foto, é outro ponto alto do local.

Quase em frente aos portões de entrada da King’s College, uma estrutura dourada chama a atenção de boa parte dos turistas. Ao me aproximar, descubro que se trata do The Corpus Clock & Chronophage, uma espécie de relógio gigante, com uma criatura que lembra um gafanhoto no topo. A estrutura se move constantemente, dando vida ao monstro ali representado.

Inaugurado em 2008, foi desenvolvido e doado por Dr John C Taylor OBE FREng à Corpus Christ College. O “animal” do topo, na verdade, é um monstro, o Chronophage. Trata-se de um “devorador do tempo”, cuja representação se dá pela movimentação do dispositivo à medida em que o tempo passa. A face do relógio, que representa o Big Bang (possível início to universo) foi banhado em ouro puro. Em sua inauguração, em 2008, ele foi revelado por nada menos que o físico Stephen Hawking.

Se você ficou curioso, no vídeo a seguir dá para ver o relógio em funcionamento:

A poucos passos do engenhoso relógio, mais uma famosa atração da cidade pode ser vista: The Eagle, pub existente desde 1667.

ℹ️ Curiosidade: Diz-se que o biólogo americano James Watson e o físico inglês Francis Crick frequentavam o lugar e foi aqui que teriam comemorado após a proposta feita por eles da estrutura em dupla hélice do DNA.

Um dos detalhes mais legais do pub são o teto e paredes repletas de mensagens escritas, que teriam sido feitas ali, entre outros, por pilotos da Força Aérea Real que atuaram na Segunda Guerra Mundial.

Mudando a rota, rumo a mais uma college, passamos rapidinho pela Cambridge University Press Bookshop, livraria que seria a mais antiga da “Bretanha”, que aqui é provável que se refira à Grã-Bretanha, maior ilha do Reino Unido, que abriga a Inglaterra, o País de Gales e a Escócia. Vale citar, obviamente, que não foi sempre ali o local do estabelecimento.

A parada seguinte seria a Trinity College. Nossa frustração, porém, se deu por conta de um imprevisto. O Trinity College Great Gate, principal portão de acesso, estava fechado por conta de projetos de restauração.

É ali que há a famosa estátua de Henrique VIII segurando uma perna de cadeira. Estranho, não? 😀 A história envolve várias teorias, mas a versão mais aceita eu te conto no fim do texto.

Henrique VIII na fachada da Trinity College. Consegue ver na parte em zoom o rei com uma das mãos vazias? Na ocasião, a perna da cadeira havia sido retirada por conta da restauração da fachada.
Henrique VIII na fachada da Trinity College. Consegue ver na parte em zoom o rei com uma das mãos vazias? Na ocasião, a perna da cadeira havia sido retirada por conta da restauração da fachada.

Saindo dali, fomos até a próxima college do dia: St John’s College. Seus edifícios e sua capela são muito bonitos, mas um dos principais pontos de interesse é a Bridge of Sighs (Ponte dos Suspiros, em português). O nome faz referência à ponte de mesmo nome em Veneza, mas confesso que não vejo tanta semelhança.

Bridge of Sighs. Reparou nas embarcações no rio Cam? São os punts, barcos típicos de lá.
Bridge of Sighs. Reparou nas embarcações no rio Cam? São os punts, barcos típicos de lá.

A taxa para visitas à St John’s College é de 10 libras para adultos.

Aproveitando o belo dia de sol, resolvemos andar mais um pouco e ir até o Jesus Lock Footbridge, uma espécie de bloqueio no rio, que conecta a parte mais alta com a parte mais baixa.

Para isso, ele possui uma seção intermediária que possui a capacidade de abrigar diferentes níveis de água (como um “elevador”), tornando possível que uma embarcação faça a travessia entre as duas regiões.

O charme deste lock específico está em seu mecanismo completamente manual.

Já com bastante fome, seguimos um pouco adiante e paramos no charmoso Fort St. George, um pub às margens do rio Cam com uma atmosfera bem agradável.

Foi ali que eu provei do Sunday Roast, um prato típico do Reino Unido, que eles geralmente comem aos domingos. Consiste, basicamente, de alguma carne assada (no meu caso, frango), batata assada, vegetais cozidos, yorkshire pudding (um bolinho) e gravy (um molho feito à base de borra de carne e gordura).

Já reabastecidos, seguimos então até o Fitzwilliam Museum. Com uma coleção muito interessante de artigos egípcios, pinturas e esculturas, a instituição começou em 1816, quando Richard Fitzwilliam, VII Visconde Fitzwilliam de Merrion, doou suas obras de arte e biblioteca para a universidade, já que acreditava que a instituição deveria ter uma estrutura do tipo.

Alguns dos itens expostos no Fitzwilliam Museum, em Cambridge.
Alguns dos itens expostos no Fitzwilliam Museum, em Cambridge.

Como muitos dos museus do Reino Unido, a entrada é gratuita!

Saindo dali, fomos à procura de uma tradicional rede de confeitarias na cidade (existente desde 1920), a Fitzbillies. No local, provamos um delicioso Chelsea Bun, espécie de pãozinho enrolado com bastante açúcar e canela.

Recarregados de açúcar, decidimos ir em busca de uma atividade bastante popular na cidade: punting.

Os punts, barquinhos que lembram gôndolas, estão espalhados por vários trechos do rio Cam e são utilizados por estudantes e demais locais, mas também estão disponíveis para aluguel. Punting é a atividade de conduzir os barquinhos pelo rio.

ℹ️ Dica: eles estão presentes na foto da Bridge of Sighs. 😉

Há duas opções: aluguel com o condutor ou não. Se você alugar para conduzi-lo por conta própria, será alocado com seus amigos em uma das embarcações e receberá uma das enormes varetas utilizadas para espetar o chão e empurrar o barco para frente, além de manobrá-lo.

Nossa amiga já havia conduzido uma destas embarcações uma vez, então nos dirigimos até a Scudamore’s Boatyard Punt Station e alugamos um dos punts sem condutor. Você aluga o barquinho por uma hora e paga menos de 30 libras. Passando de uma hora, a cobrança excedente é feita a cada bloco de alguns minutos.

O passeio vale muito a pena porque você consegue visualizar diferentes pontos da cidade, em especial as colleges, de uma perspectiva completamente diferente.

Um dos pontos que vimos de forma privilegiada foi a Mathematical Bridge, por exemplo, uma ponte de madeira com uma estrutura complexa e que foi construída inicialmente em 1749 por James Essex The Younger, seguindo projeto de 1748 de William Etheridge.

Mathematical Bridge, Cambridge.
Mathematical Bridge, Cambridge.

 

Vale a pena visitar também

Aqui, vale citar dois pontos que eu gostaria de ter visitado, mas não consegui.

O primeiro foi a própria Trinity College, que no dia não estava aberta à visitação.

O segundo ponto é o Cambridge University Botanic Garden. Criado originalmente em 1762 no centro da cidade, o jardim botânico foi movido posteriormente (por volta de 1846) por John Stevens Henslow, professor de botânica na universidade. Henslow teve como estudante orientado (ou protégé, pra ser mais chique) o ilustre Charles Darwin.

 

Curiosidades

As curiosidades sobre a cidade começam pelo nome: diz-se que há vários séculos ela se chamava Grentebrige e o rio que por ela passa se chamava Granta. Com o tempo o nome da cidade se alterou para Cambridge. Para alguns, o nome seria algo como “ponte do Cam” (bridge, em inglês, é ponte), mas o rio não se chamava Cam, então seu nome foi alterado para que ficasse conforme.

Sua população é de quase 125800 habitantes (dados de 2018).

Embora a cidade seja muito conhecida pela Universidade de Cambridge (fundada em 1209), ela já existia antes da universidade. Quando se fala apenas de grupos humanos vivendo na área, por exemplo, a coisa é bem mais antiga: há indícios de comunidade vivendo por lá desde o primeiro século antes de Cristo. Os romanos, por sua vez, dominaram a região por volta do ano 40 depois de Cristo.

A Universidade de Cambridge é a segunda mais antiga em funcionamento no Reino Unido, atrás apenas de Oxford, e possui 31 diferentes colleges autônomas.

 

A espada roubada de Henrique VIII na Trinity College

A estátua de Henrique VIII no grande portão da Trinity College data de cerca de 1615. Em sua constituição inicial, a estátua segurava uma esfera e uma espada douradas.

Tudo teria começado quando Peter Binge, um funcionário da Chesterton Window Cleaning Company, empresa à época encarregada da limpeza das janelas da Trinity College, notou que a estátua do antigo monarca britânico estava com uma das mãos faltando algo.

Ele então resolveu fazer uma brincadeira: entrou no edifício pela janela (ele estava no topo de uma escada fazendo a limpeza) e encontrou uma cadeira velha, da qual removeu uma das pernas e colocou na mão vazia da estátua.

A suspeita do funcionário à época é de que Cambridge Night Climbers, um grupo clandestino de estudantes conhecido por escalar edifícios da universidade, provavelmente teria roubado a espada de Henrique VIII muito antes da época de sua brincadeira.

 

Como chegar à Cambridge a partir de Londres

Para chegar à Cambridge, a forma mais prática é pegar um trem a partir da estação London King’s Cross. O trem mais rápido demora apenas 50 minutos. Em outubro de 2019, o bilhete com retorno incluso custava 17,80 libras (em ida e volta fora de horário de pico).

 

E é isso… Espero que tenha gostado do passeio de hoje!

Cambridge é uma cidade relativamente pequena, mas você passa um dia na cidade e ainda sente que não viu tudo que gostaria.

Arrivederci! 🙂

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