Coronavírus em Londres: qual é a sensação atual na capital e em todo o Reino Unido

Coronavírus em imagem gerada por Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Photo by CDC (https://unsplash.com/@cdc) on Unsplash.

No texto de hoje, quero fazer uma pausa na série “O que fazer em Londres” e trazer um relato, sem julgamentos, sobre a atual situação na capital britânica depois que a Covid-19 (doença causada pela mais recente cepa do coronavírus) foi declarada pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS), no último dia 11 de março.

O que tem sido feito?

Como em muitos outros países, medidas extremas de fechamento de escolas e universidades em todo o território, pelo menos por agora, estão descartadas.

No último dia 11 de março, o governo anunciou oficialmente a mudança do status de gerenciamento da epidemia de “contenção” para “postergação”, visando empurrar o pico no número de contágios para os meses mais quentes na região, ou seja, a partir de maio.

Quer entender melhor o impacto de medidas fortes contra o coronavírus? Esta reportagem do El País te ajudará a entender, com um gráfico que compara as diferentes possibilidades.

A medida demonstraria algo que preocupa um grupo significativo da população: o fator econômico, por mais que afete a todos nós, pode estar tendo prioridade excessiva em um cenário em que a saúde mundial está em jogo.

Se ficou confuso, repito: até que ponto a saúde econômica deveria manter estabelecimentos não prioritários abertos em um momento em que isto pode significar uma maior exposição de toda a população ao novo vírus?

Enquanto na Itália se mantém um bloqueio em todo o país, com restrição ao funcionamento de estabelecimentos não essenciais, por aqui há a recomendação para que pessoas com sintomas, mesmo que leves, compatíveis com a doença permaneçam em casa por pelo menos 7 dias, a restrição de visitas a casas de repouso de idosos e algumas outras medidas que você pode conferir aqui.

Apesar de se dizer guiado por dados científicos e afirmar que, por agora, fechar escolas poderia trazer mais malefícios do que boas novas, o tom brando do governo não agradou a todos.

Outra questão que desapontou muitas pessoas foi a fala do primeiro-ministro, Boris Johnson, de que “muitas famílias ainda perderão entes queridos antes de sua hora”. Por mais que não esteja fora da realidade, é uma frase que mais adiciona estresse do que ajuda.

Um dado que gera também comoção é a afirmação do conselheiro científico do governo, Patrick Vallance, de que o retardo do pico da doença até os meses de verão também permitiria que se obtivesse o nível de 60% de contaminação na população, cerca de 39 milhões de pessoas, para obter a imunidade comunitária, ou seja, quando há pessoas o suficiente imunes ao vírus, protegendo as parcelas mais frágeis da população.

Se o fato de medidas extremas não terem sido confirmadas preocupa a muitos, a possibilidade do fechamento de instituições de ensino e de comércio não essencial, além do cancelamento de eventos, também gera ansiedade em uma parcela em particular da população: trabalhadores a “hora zero”, ou seja, aqueles que trabalham sendo pagos apenas por horas efetivamente trabalhadas, sem qualquer proteção em caso de ausência.

Geralmente em grupos de trabalhadores com renda mais baixa, a falta de um salário pode significar a ausência de condições mínimas de sustento, como pagamento de aluguel ou compras de mercado.

Quais os números atuais?

O número de casos, segundo o Departamento de Saúde e Assistência Social, em um grupo de 36606 pessoas testadas, estava em 1140 no último sábado, com 21 mortos.

Em um discurso recente, porém, o governo foi categórico: o número real de casos, incluindo aqueles ainda não conhecidos, deve estar entre 5 e 10 mil.

Qual o sentimento nas ruas de Londres?

Por mais que muitas pessoas sigam suas vidas normalmente, o bombardeio de notícias negativas vindas da Europa, do próprio Reino Unido e do resto do mundo gerou por aqui efeito similar àquele sentido em várias outras partes do mundo.

Supermercados e farmácias, por mais que tentem repor as mercadorias quase que diariamente, já apresentam escassez de itens básicos de consumo, como papel higiênico, macarrão, álcool gel, sabonete para as mãos, vegetais e itens similares. Quando são repostos, duram pouco tempo nas prateleiras.

Isto levou a muitos estabelecimentos, tanto em lojas físicas quanto online, a limitarem a quantidade de itens que cada pessoa pode comprar em diversas categorias.

Outra coisa que me deixou bastante desconfortável foi o clima nestes locais. Em um dos mercados, enquanto caminhava para fazer minha compra da semana, sentia um clima de nervosismo e pânico por todo lado. A sensação é de que qualquer coisa poderia criar discussões e brigas por ali.

Os serviços de transporte público também refletem o clima geral. Com casos ja confirmados entre seus funcionários, os trens do metrô, por exemplo, estão visivelmente mais vazios.

Algumas empresas, mesmo diante do discurso do primeiro-ministro, já tomaram decisões individuais: aqueles com cargos que não exigem presença física nos escritórios estão sendo orientados a trabalhar de casa, pela Internet.

Apesar disso, alguns ambientes ainda mantêm um clima diferente dos demais: cafés, por exemplo, ainda estão repletos de clientes e parques e outros lugares abertos ainda contam com muitas famílias, em especial na área das crianças.

Tenho viagem agendada. Devo cancelar?

Aqui, entramos em uma decisão delicada: muitas pessoas, como eu, agendaram viagens para países da Europa (ou outros locais) e agora não sabem se conseguirão reagendar ou mesmo cancelar suas reservas sem prejuízos.

Para te ajudar nesta decisão, te apresento o meu caso: com viagem programada para Paris, ainda não havia decidido se cancelaria ou não o passeio, já que Reino Unido e França ainda não haviam tomado medidas de bloqueio de viagens ou fechamento de estabelecimentos culturais, por exemplo.

Neste sábado, porém, a França confirmou o fechamento de cafés, cinemas, restaurantes e outras instituições. Com isto, verifiquei os sites do Museu do Louvre e da Torre Eiffel e confirmei: os ingressos, antes não passíveis de reembolso por cancelamento, agora serão cancelados e reembolsados automaticamente.

Verifiquei ainda a Eurostar, companhia que opera trens entre o Reino Unido e o continente, e confirmei que estão aceitando a emissão de cupons com o valor gasto em viagens para as próximas semanas (até 07/04), que poderá ser utilizado posteriormente.

Com isso, cancelei hotel e trem e desisti de viajar por enquanto.

Se você, porém, não tiver o cancelamento ou a remarcação gratuitos aceitos pela companhia, verifique seus direitos em órgãos de proteção ao consumidor, como o Procon-SP, que orienta: você não pode ser obrigado a viajar para destinos que ofereçam risco de contágio pelo novo coronavírus.

Qual instituição consultar, porém, dependerá de onde você vive e de qual empresa utilizou para a emissão das reservas e bilhetes. O importante é, como sempre, tentar primeiro negociar com a própria companhia que você contratou.

A decisão por cancelar ou reprogramar uma viagem, porém, é sua. Avalie os riscos, potenciais prejuízos econômicos e considere: vale tentar a “sorte”?

O maior problema atualmente é a imprevisibilidade dos eventos em curso. A França, por exemplo, nem era notícia quando planejei a viagem, no início de janeiro.

Por último, outro elemento importante no contexto atual é seu seguro-viagem. Obrigatório para viagens para países que fazem parte do Espaço Schengen e essenciais mesmo onde não é exigido, geralmente não cobrem pandemias, ou seja, você corre o risco de voltar para casa com uma conta médica de vários dígitos, além de expor membros pessoas com imunidade mais frágil em sua comunidade após o retorno.

E é isso! Espero que este texto tenha lhe ajudado a entender o cenário atual sobre a doença no Reino Unido. Tem algo a acrescentar? Comente aqui embaixo!

Arrivederci! E se cuide.