Coronavírus: na disputa política, quem devemos seguir?

Prateleiras de papel higiênico em um supermercado de Londres

No Brasil, como na maioria dos outros países, a pandemia de Covid-19, causada pelo novo coronavírus, está gerando muita preocupação, um número com crescimento exponencial de mortes e uma mudança na sociedade que só perceberemos lá na frente.

Por um lado, há cientistas, médicos, biólogos, enfermeiras e outros profissionais na linha de frente do enfrentamento a esta doença de disseminação assustadoramente rápida; do outro, alguns políticos, uma parcela do grupo empresarial, alguns grupos religiosos e muitos negacionistas.

Espectro político ou partidos à parte, a maioria da população se sente à mercê, sem saber a quem ouvir: aos que promovem e estimulam o isolamento geral da sociedade ou aos que defendem o isolamento vertical, onde apenas idosos e demais vulneráveis são “protegidos”?

O avanço das redes sociais trouxe um acesso descomunal à informação, mas elas também deram uma força absurda para a propagação de notícias falsas (fake news, pra usar o termo da moda). Em 2018, um estudo do Massachusetts Institute of Technology (MIT) publicado na revista Science já afirmava: em tweets, notícias falsas têm 70% mais chance de serem compartilhadas do que aqueles com notícias verdadeiras.

Diante de tanta desinformação e uso malicioso de notícias falsas e/ou antigas sobre a pandemia, fica a pergunta: a quem devo ouvir? Quem defende a volta de todas as atividades comerciais e isolamento vertical ou quem defende que tudo que não é essencial deve parar, postergando ao máximo o pico do contágio?

A resposta é simples, mesmo que difícil de aceitar para a maioria das pessoas: nenhum grupo político, religioso ou empresarial merece seus ouvidos abertos sem julgamento. Na dúvida, lance mão da ajuda do único lado possível em situações como essa: a Ciência.

Ai! Lá vem o Adriano! Chato pra caramba, isso!

Então… Acompanhe meu raciocínio e julgue o tema quando tudo estiver explicado. É mais lógica do que apenas opinião. Prometo!

Vamos começar pelo óbvio, ou seja, por que eu defendo que é a Ciência que deve ser ouvida nestes casos, mas não pastores, padres, políticos, empresários e demais grupos da sociedade?

A pergunta tem uma resposta muito simples, que eu trarei após a seguinte analogia: se você quebrar seu braço, quem você deve procurar? Um curandeiro, um líder religioso ou o prefeito?

Se você não vive em uma área remota ou sem acesso a cuidados de saúde, espero que tenha respondido com o mais óbvio: ninguém entre os citados, mas alguém da área de saúde ou, dada a urgência, o pronto-socorro mais próximo.

Óbvio, não é?!

Pois é! Parece óbvio, mas nos dias atuais, o obviamente correto, quando existe, nem sempre é a primeira opção das pessoas.

A questão aqui é bem mais simples do que pró-conspiração ou radicais gostam de defender. Quando se defende que os profissionais que estudam aquela área devem ser as vozes protagonistas em um problema, isto é dito pura e simplesmente porque são eles que entendem melhor a situação.

Mas eles mudam de ideia toda hora!

Sim, é verdade! Muitos especialistas, especialmente em situações novas e dinâmicas como da epidemia global atual, mudam as orientações periodicamente, reforçando ou afrouxando as recomendações — e isto é normal!

A Ciência é uma atividade dinâmica, em constante evolução, contestação e melhoria. É justamente por isto que é o ente mais confiável. Construindo suas descobertas em pesquisa, revisão por colegas no campo de estudo e discussões entre especialistas, é ela que sempre pode trazer o resultado que a sociedade precisa para resolver os mais diversos problemas.

Tá, mas Ciência é um termo vago. Quem deve ser ouvido nisto tudo?

Aqui entra a questão da especialização. Estamos em um contexto de pandemia, causada por um vírus recém-descoberto e cuja dinâmica pouco se conhece. Neste contexto, portanto, não ajuda muito ouvir um agrônomo, por exemplo.

A resposta está em duas grandes áreas: Ciências Médicas e Ciências Biológicas. Elas são irmãs, cheias de atividades em comum, embora possuam alguma divergência no foco principal.

Dentro destas áreas, ao invés de profissionais isolados, verifique primeiro as orientações das organizações que representam o consenso científico na área, ou seja, o que a maioria dos estudiosos consideram como correto.

Sendo assim, há algumas instituições e especialistas que merecem a sua atenção:

Organização Mundial da Saúde (OMS) e similares

Organização focada em ações de saúde fundada em 1948, é parceira da Organização das Nações Unidas (ONU) especialmente nos seus escritórios regionais.

Informações da ONU, da OMS e da UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), entre outras, representam consenso de especialistas e iniciativas confiáveis para lidar com problemas deste porte.

Alguns links úteis destes órgãos:

Institutos de pesquisa e universidades

Há inúmeras instituições no Brasil comprometidas com pesquisa sobre o novo coronavírus. Mesmo com um orçamento com cortes constantes e cancelamento de bolsas, sempre trazem uma produtividade acima do esperado.

A Fiocruz, por exemplo, tem uma seção de perguntas e respostas bem completa em sua página.

Especialistas

Aqui, é sempre bom verificar quem este suposto especialista é, sua formação, se é citado por outros meios de informação e se ele se baseia na opinião de outros especialistas e instituições importantes durante seu discurso.

Por último, uma dica importante da confiabilidade deste profissional está na instituição em que ele trabalha. No Brasil, por exemplo, departamentos especializados em universidades e institutos de pesquisa em saúde oferecem uma gama de profissionais comprometidos com o tema.

Um dos estudiosos que ganharam mais destaque recentemente foi Atila Iamarino, biólogo, doutor em microbiologia e pós-doutor.

De uma forma bem didática, seu canal traz informações sobre as ações recomendadas e qual a dinâmica da doença.

Embora não seja infectologista, Drauzio Varella possui um currículo respeitado na área de saúde em geral. Um vídeo recente muito interessante (entre vários de igual importância) orienta sobre a doença e quando se deve procurar atendimento nas instituições de atendimento em saúde. Para isto, ele conta com o apoio do infectologista Esper Kallas.

Isolamento e quarentena: qual a finalidade e eficácia?

De uma forma geral, o estímulo ao trabalho de casa (também chamado de trabalho remoto ou teletrabalho), fechamento de estabelecimentos não essenciais e isolamento total de vulneráveis e potenciais disseminadores da doença (contaminados ou que tiveram contato com casos confirmados) busca “achatar a curva” de contágio, ou seja, evitar que se tenha um grupo grande de contágios em um pequeno período de tempo, ultrapassando de forma assustadora a capacidade do sistema de saúde de oferecer tratamento aos doentes.

Ao invés disso, com diferentes medidas de contenção, tem-se um número médio de contágios durante um período mais longo, chegando o mais próximo possível ao número de casos que os hospitais podem atender.

Como demonstrado no vídeo acima, o isolamento radical da população traz muitos impactos sociais, mas é uma das estratégias mais seguidas pelos governos, especialmente na Europa.

Por outro lado, países como a Coreia do Sul apostam em um isolamento mais leve, desde que os testes sejam feitos com uma abrangência muito maior do que é feito no Brasil, por exemplo.

Qual o maior perigo das medidas tomadas no Brasil?

Aqui, deixo um pouco da minha opinião sobre o tema.

De um lado, temos prefeitos e governadores, além de instituições de saúde e pesquisa, implementando e/ou estimulando medidas mais firmes de isolamento social, testes para o novo coronavírus e fechamento de fronteiras.

Do outro, temos o governo federal, exceto pelo Ministério da Saúde, defendendo uma abordagem de isolamento vertical, que isolaria apenas idosos e população vulnerável, além dos infectados. Esta estratégia já foi implementada por outros países, como no caso do Reino Unido, que mudou sua posição quando viu projeções de cientistas para um aumento exponencial de casos.

O Huffpost Brasil traz um texto muito interessante sobre o tema. Com a ajuda de Jamal Suleiman, do Instituto de Infectologia do Hospital Emílio Ribas, demonstra como a aposta parcial do governo federal já não viria a tempo de ser efetiva, sendo boa apenas quando aplicada muito antes na linha do tempo dos contágios.

Independente da medida tomada, porém, o perigo maior tem sido a disputa política durante as tomadas de decisão. Os dois níveis governamentais, estadual ou federal, parecem já atuar com vistas às próximas eleições, fugindo de uma abordagem centralizada, focada na Ciência e que priorize salvar vidas e diminuir impactos econômicos e sociais.

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