Na quarentena, cada um tem sua revolução

Túnel vazio do metrô de Londres durante período da Covid-19. Em estações antes muito utilizadas mesmo fora do horário de pico, vê-se agora um movimento muito inferior.

Com o privilégio de quem pode trabalhar de casa em situações de necessidade, completarei 4 meses de quarentena na próxima semana.

Desde o começo, lembro-me de ver as redes sociais repletas de influenciadores dos mais diversos tipos promovendo uma revolução quase espiritual, com mais exercícios físicos, novas habilidades, cursos profissionalizantes e muita meditação.

Embora a positividade da quarentena possa ajudar alguns, ela não foi uma realidade para mim na mesma medida e hoje eu gostaria de conversar contigo sobre por que isto é, na verdade, perfeitamente normal.

Tá okay não amar este período

Isolamento

Há alguns anos, depois de um bom período de terapia, aprendi que sou o tipo de pessoa sociável, que gosta daquelas rotinas de interação do dia a dia.

Não sou o melhor em iniciar uma conversa com pessoas aleatórias, mas adoro ter aquelas conversas despretensiosas e ocasionais com pessoas que já conheço.

Curto descer do meu andar no escritório e fazer uma parada rápida no café do prédio, por exemplo, sempre esbarrando em algum conhecido. O espresso cotidiano e uma atualizada nos papos são duas das coisas que mais sinto falta dos períodos “normais”.

Assim como eu, muitas outras pessoas também sentem falta desta interação ocasional, seja no trabalho, nos pubs ou nos eventos ao ar livre; mas para alguns esta mudança pode ser mais dolorosa.

Especialmente em grandes metrópoles, como Londres, São Paulo, Nova Iorque e muitas outras, é normal que as pessoas morem sozinhas e em espaços pequenos (a kitnet, que na versão gourmet se chama studio). A quarentena forçada, especialmente nestes casos, pode representar um período muito desafiador.

Somos, por natureza, seres sociais. Isolamento é estar fora de sua natureza, seja ela dos “ois” tímidos na padaria todas as manhãs ou de uma balada louquíssima em algum bairro mais descolado da cidade.

Redução/perda de renda

Nem todo mundo vai reorganizar as finanças e encontrar novas oportunidades para geração de renda no período de isolamento.

A imagem do empreendedor cool que “trabalha enquanto os outros dormem” e está feliz da vida não cabe para todos.

É difícil pensar em melhoria da renda quando se é um trabalhador informal sem salário fixo em uma casa de dois cômodos e mais de cinco moradores em alguma comunidade carente de São Paulo, por exemplo.

Para muitos, o “se reinventar” se traduz em “tentar sobreviver mais um dia”.

Saúde mental é o desafio da vez

Fico muito feliz pelos evoluídos de alma e espírito, mas quem tá sofrendo neste período longe da família, dos amigos e da rotina pré-pandemia precisa entender que não está sozinho nessa.

Se você sentir alguma dificuldade maior em manter uma mente sã, busque a ajuda (virtual) de familiares, amigos ou mesmo de órgãos de apoio, como o CVV (Centro de Valorização da Vida).

A depressão, as crises de ansiedade e outros desafios para a mente podem aparecer e é sempre bom entender que isto é normal e que mais normal ainda é pedir ajuda. Não há fraqueza alguma nisto. Se quiser uma conversa mais focada nisto, aqui no blog temos um texto sobre depressão e o que devemos fazer se ela bater à sua porta.

Não procure ser exemplar, mas cuide de você

Durante esta fase tão atípica, fiz mil planos: voltar a correr, caminhar regularmente, fazer alguns cursos, estudar canto novamente, fazer voluntariado… e a lista continua ad aeternum.

Me pergunte o que realmente fiz e terá uma lista que cabe facilmente em uma mão: tenho caminhado com um pouco mais de frequência do que no começo da quarentena e cheguei a estudar alguns temas pontuais.

O principal aqui é que não há competição. Seu foco precisa ser naquilo que te faz bem. Se a região onde mora permite fazer caminhadas de forma segura, tente começar saindo uma vez por semana. É viável? Se sim, será que dá pra transformar em dois dias?

Se caminhada não for a sua praia, talvez um livro? Um filme uma vez por semana? Uma receita que te dê conforto? Uma conversa com família ou amigos por telefone ou chamada de vídeo?

Novamente, aqui não estamos em competição. Proponha UMA atividade prazerosa viável e execute com a frequência que for possível. Respeite seu tempo. Não deu, tente de novo outro dia.

Falhei de novo. M*rda! Passou.

Nenhum de nós aqui é um prodígio acima de toda e qualquer falha, então é perfeitamente aceitável que qualquer uma das coisas que refletimos juntos no texto de hoje eventualmente não dê certo.

A caminhada não passou de um plano no papel? Não cozinhou nada novo? Pilates? Yoga? Nadinha? Tá tudo bem!

Você não precisa impressionar ninguém e somente você mesmo pode planejar algo, executar (ou não) e avaliar os resultados. Seja gentil consigo! Ser seu maior carrasco não tá com nada.

Há sempre tempo de tentar novamente.

Quarentena? Nunca nem vi

Por último, há aquele grupo de trabalhadores-chave, seja da área de saúde, funcionários de comércio essencial e de serviços que não podem parar de forma alguma.

Para eles, sair de casa todos os dias para que o mundo não pare pode até ser motivador pela sua importância, mas também é uma fonte de medo, angústia e ansiedade. Ninguém escolheria passar por isso se não fosse por uma noção forte de dever cívico ou mesmo por necessidade.

A eles, seja agora ou em outras épocas, devemos demonstrar um respeito muito grande e jamais tratar com falta de educação ou impaciência. O fato deles estarem trabalhando para que você tenha uma vida minimamente viável já deveria fazer surgir gratidão no coração de todos nós.

E é isso! Espero que goste tenha gostado do texto de hoje. Pegue leve! Estamos juntos nessa.

E se você é um profissional essencial trabalhando em tempos tão complexos, meu muito obrigado. 🖤

Arrivederci! 🙂

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