O veneno escondido na parede das casas vitorianas britânicas

University of Leeds - Terraced Houses. Stefan Baguette / CC BY-SA (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0)

Um dos estilos arquitetônicos mais famosos do Reino Unido, as casas vitorianas são inspiração até hoje para todos que gostam de uma decoração mais rica em elementos e cores.

O que muitos não imaginam, porém, é que por trás de todo esse charme já se escondeu um inimigo silencioso, trazido para as casas em nome de cores mais vivas do que nunca nos inúmeros florais e arabescos aplicados nas paredes.

Não entendeu? Te explico no texto de hoje.

O que são as casas vitorianas?

Casas vitorianas vieram em um período em que a Revolução Industrial fazia explodir a demanda por habitação nos centros urbanos, puxada principalmente pela massa de trabalhadores nas fábricas.

Embora nas áreas mais abastadas as residências do período fossem muito rebuscadas, nos bairros de trabalhadores o estilo era bem diferente. Entre os elementos de decoração do período, estavam lareiras em vários cômodos, andares de madeira, tijolos coloridos e elaborados desenhos em papéis de parede.

Outro estilo bem comum, desta vez nas áreas um pouco menos abastadas, eram as terraced houses, até hoje muito comuns nas ruas do Reino Unido. Este tipo de residência é formado por casas em tijolos aparentes distribuídas em longas sequências, cuja parede da fachada guarda um elemento muito típico: elas foram construídas bem conectadas umas às outras, de maneira que parece até mesmo que todo o bloco de casas é, na verdade, uma só construção.

Isto agilizava os projetos e diminuía o preço final dos imóveis, uma demanda da classe média da época, que precisava morar perto do trabalho.

O termo “vitoriano” se dá, porém, a todas as casas construídas durante o período do Reino Unido sob o comando da rainha Vitória, de 1837 a 1901.

O assassino silencioso nas paredes

À esquerda, Daisy (criado em 1862 e impresso em 1864); à direita, Marigold (criado em 1873 e registrado em 1875). Morris & Co. Acervo do Los Angeles County Museum of Art.
À esquerda, Daisy (criado em 1862 e impresso em 1864); à direita, Marigold (criado em 1873 e registrado em 1875). Morris & Co. Acervo do Los Angeles County Museum of Art.

O barateamento relativo das residências proporcionava um maior acesso a moradia para trabalhadores.

E se há mais residências sendo construídas, há também maior demanda por produtos para a casa. É aqui que entra então o gosto pelas cores vivas e marcantes nos papéis de parede, na maioria das vezes em motivos que envolviam plantas.

Inventado em 1775 pelo químico farmacêutico Carl Wilhelm Scheele, o “verde Scheele” se tornou muito popular, pois permitia que os papéis de parede estampassem um verde vívido e brilhante, alvo do desejo de muita gente à época.

Por trás desta cor tão marcante, porém, estava um material perigoso: o arsenito de hidrogênio cúprico. Em palavras mais simples: uma mistura de variações de arsênio e cobre com alguns outros elementos (CuHAsO₃).

Naquele período, era bastante comum que se mergulhasse a carne em mistura de arsênio para espantar moscas e que se usasse inseticidas com arsênio para o cultivo de vegetais, entre muitos outros usos do elemento químico que hoje espantariam qualquer um.

Com o tempo, vários países europeus reconheceram que ele causava danos à saúde, mas na Grã-Bretanha a crença era ainda de que a ingestão de arsênio em alimentos era a única forma perigosa. Por conta disso, maquiagem, vestuário e vários outros itens continuaram sendo produzidos.

Acidentes causados pelo uso de pigmentos verdes com Arsênio. Créditos: Accidents caused by the use of green arsenic, 1859. Credit: Wellcome Collection. Attribution 4.0 International (CC BY 4.0).
Acidentes causados pelo uso de pigmentos verdes com Arsênio. Créditos: Accidents caused by the use of green arsenic, 1859. Credit: Wellcome CollectionAttribution 4.0 International (CC BY 4.0).

Para se ter ideia, a terra da rainha vivenciou um crescimento de 2165% na demanda de rolos de papel de parede entre 1834 e 1874, chegando à produção de 32 milhões de rolos neste ano. Embora o número represente muito provavelmente todos os tipos, ele dá uma boa ideia do impulso que este produto teve.

Outro fator que atrasou a percepção da população britânica em relação ao problema dos papéis de parede que utilizavam arsênio tinha a ver com a própria variação no arranjo populacional. Embora uma certa quantidade atingisse em cheio crianças, pessoas adoecidas e idosos, levando até mesmo à morte, adultos saudáveis nem sempre percebiam o mesmo efeito a curto prazo.

Além disso, mesmo que os malefícios tenham sido percebidos pela população após algumas décadas, o governo da época demorou a reagir. Foi só em 1883 e em 1895 que o Parlamento britânico instituiu leis que regulavam de alguma maneira os ambientes fabris onde funcionários poderiam ter contato com o produto.

Assim sendo, muito mais do que a legislação, foi a crescente rejeição da população a estes produtos que fez com que novas alternativas de papel de parede sem o pigmento tóxico fossem desenvolvidas e lançadas no mercado.

Por último, vale sempre lembrar: apesar de casas vitorianas ainda serem muito comuns na geografia das cidades britânicas, o papel de parede controverso não costuma ser mais encontrado por lá.

Referências (em inglês)

Todos os links foram acessados entre 23 e 24 de julho de 2020.

  1. Ancient Origins: Death by Wallpaper: When Arsenic in the Walls Was Killing Children (2018), por Veronica Parkes.
  2. The Paris Review: Scheele’s Green, the Color of Fake Foliage and Death (2018), por Katy Kelleher.
  3. Smithsonian Magazine: Arsenic and Old Tastes Made Victorian Wallpaper Deadly (2017), por Kat Eschner.
  4. Hyperallergic: Death by Wallpaper: The Alluring Arsenic Colors that Poisoned the Victorian Age (2016), por Allison Meier.
  5. Vogue USA: The Shocking History of Arsenic-Laced Wallpaper (2016), por Madeleine Luckel.

Foto de destaque: Stefan Baguette / CC BY-SA

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