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Coronavírus em Londres: qual é a sensação atual na capital e em todo o Reino Unido

Curiosidades15/03/2020

No texto de hoje, quero fazer uma pausa na série “O que fazer em Londres” e trazer um relato, sem julgamentos, sobre a atual situação na capital britânica depois que a Covid-19 (doença causada pela mais recente cepa do coronavírus) foi declarada pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS), no último dia 11 de março.

O que tem sido feito?

Como em muitos outros países, medidas extremas de fechamento de escolas e universidades em todo o território, pelo menos por agora, estão descartadas.

No último dia 11 de março, o governo anunciou oficialmente a mudança do status de gerenciamento da epidemia de “contenção” para “postergação”, visando empurrar o pico no número de contágios para os meses mais quentes na região, ou seja, a partir de maio.

Quer entender melhor o impacto de medidas fortes contra o coronavírus? Esta reportagem do El País te ajudará a entender, com um gráfico que compara as diferentes possibilidades.

A medida demonstraria algo que preocupa um grupo significativo da população: o fator econômico, por mais que afete a todos nós, pode estar tendo prioridade excessiva em um cenário em que a saúde mundial está em jogo.

Se ficou confuso, repito: até que ponto a saúde econômica deveria manter estabelecimentos não prioritários abertos em um momento em que isto pode significar uma maior exposição de toda a população ao novo vírus?

Enquanto na Itália se mantém um bloqueio em todo o país, com restrição ao funcionamento de estabelecimentos não essenciais, por aqui há a recomendação para que pessoas com sintomas, mesmo que leves, compatíveis com a doença permaneçam em casa por pelo menos 7 dias, a restrição de visitas a casas de repouso de idosos e algumas outras medidas que você pode conferir aqui.

Apesar de se dizer guiado por dados científicos e afirmar que, por agora, fechar escolas poderia trazer mais malefícios do que boas novas, o tom brando do governo não agradou a todos.

Outra questão que desapontou muitas pessoas foi a fala do primeiro-ministro, Boris Johnson, de que “muitas famílias ainda perderão entes queridos antes de sua hora”. Por mais que não esteja fora da realidade, é uma frase que mais adiciona estresse do que ajuda.

Um dado que gera também comoção é a afirmação do conselheiro científico do governo, Patrick Vallance, de que o retardo do pico da doença até os meses de verão também permitiria que se obtivesse o nível de 60% de contaminação na população, cerca de 39 milhões de pessoas, para obter a imunidade comunitária, ou seja, quando há pessoas o suficiente imunes ao vírus, protegendo as parcelas mais frágeis da população.

Se o fato de medidas extremas não terem sido confirmadas preocupa a muitos, a possibilidade do fechamento de instituições de ensino e de comércio não essencial, além do cancelamento de eventos, também gera ansiedade em uma parcela em particular da população: trabalhadores a “hora zero”, ou seja, aqueles que trabalham sendo pagos apenas por horas efetivamente trabalhadas, sem qualquer proteção em caso de ausência.

Geralmente em grupos de trabalhadores com renda mais baixa, a falta de um salário pode significar a ausência de condições mínimas de sustento, como pagamento de aluguel ou compras de mercado.

Quais os números atuais?

O número de casos, segundo o Departamento de Saúde e Assistência Social, em um grupo de 36606 pessoas testadas, estava em 1140 no último sábado, com 21 mortos.

Em um discurso recente, porém, o governo foi categórico: o número real de casos, incluindo aqueles ainda não conhecidos, deve estar entre 5 e 10 mil.

Qual o sentimento nas ruas de Londres?

Prateleiras de papel higiênico em um supermercado de Londres
Prateleiras de papel higiênico em um supermercado de Londres

Prateleiras de sabonete para as mãos em supermercado de Londres
Prateleiras de sabonete para as mãos em supermercado de Londres

Por mais que muitas pessoas sigam suas vidas normalmente, o bombardeio de notícias negativas vindas da Europa, do próprio Reino Unido e do resto do mundo gerou por aqui efeito similar àquele sentido em várias outras partes do mundo.

Supermercados e farmácias, por mais que tentem repor as mercadorias quase que diariamente, já apresentam escassez de itens básicos de consumo, como papel higiênico, macarrão, álcool gel, sabonete para as mãos, vegetais e itens similares. Quando são repostos, duram pouco tempo nas prateleiras.

Isto levou a muitos estabelecimentos, tanto em lojas físicas quanto online, a limitarem a quantidade de itens que cada pessoa pode comprar em diversas categorias.

Outra coisa que me deixou bastante desconfortável foi o clima nestes locais. Em um dos mercados, enquanto caminhava para fazer minha compra da semana, sentia um clima de nervosismo e pânico por todo lado. A sensação é de que qualquer coisa poderia criar discussões e brigas por ali.

Os serviços de transporte público também refletem o clima geral. Com casos ja confirmados entre seus funcionários, os trens do metrô, por exemplo, estão visivelmente mais vazios.

Algumas empresas, mesmo diante do discurso do primeiro-ministro, já tomaram decisões individuais: aqueles com cargos que não exigem presença física nos escritórios estão sendo orientados a trabalhar de casa, pela Internet.

Apesar disso, alguns ambientes ainda mantêm um clima diferente dos demais: cafés, por exemplo, ainda estão repletos de clientes e parques e outros lugares abertos ainda contam com muitas famílias, em especial na área das crianças.

Tenho viagem agendada. Devo cancelar?

Aqui, entramos em uma decisão delicada: muitas pessoas, como eu, agendaram viagens para países da Europa (ou outros locais) e agora não sabem se conseguirão reagendar ou mesmo cancelar suas reservas sem prejuízos.

Para te ajudar nesta decisão, te apresento o meu caso: com viagem programada para Paris, ainda não havia decidido se cancelaria ou não o passeio, já que Reino Unido e França ainda não haviam tomado medidas de bloqueio de viagens ou fechamento de estabelecimentos culturais, por exemplo.

Neste sábado, porém, a França confirmou o fechamento de cafés, cinemas, restaurantes e outras instituições. Com isto, verifiquei os sites do Museu do Louvre e da Torre Eiffel e confirmei: os ingressos, antes não passíveis de reembolso por cancelamento, agora serão cancelados e reembolsados automaticamente.

Verifiquei ainda a Eurostar, companhia que opera trens entre o Reino Unido e o continente, e confirmei que estão aceitando a emissão de cupons com o valor gasto em viagens para as próximas semanas (até 07/04), que poderá ser utilizado posteriormente.

Com isso, cancelei hotel e trem e desisti de viajar por enquanto.

Se você, porém, não tiver o cancelamento ou a remarcação gratuitos aceitos pela companhia, verifique seus direitos em órgãos de proteção ao consumidor, como o Procon-SP, que orienta: você não pode ser obrigado a viajar para destinos que ofereçam risco de contágio pelo novo coronavírus.

Qual instituição consultar, porém, dependerá de onde você vive e de qual empresa utilizou para a emissão das reservas e bilhetes. O importante é, como sempre, tentar primeiro negociar com a própria companhia que você contratou.

A decisão por cancelar ou reprogramar uma viagem, porém, é sua. Avalie os riscos, potenciais prejuízos econômicos e considere: vale tentar a “sorte”?

O maior problema atualmente é a imprevisibilidade dos eventos em curso. A França, por exemplo, nem era notícia quando planejei a viagem, no início de janeiro.

Por último, outro elemento importante no contexto atual é seu seguro-viagem. Obrigatório para viagens para países que fazem parte do Espaço Schengen e essenciais mesmo onde não é exigido, geralmente não cobrem pandemias, ou seja, você corre o risco de voltar para casa com uma conta médica de vários dígitos, além de expor membros pessoas com imunidade mais frágil em sua comunidade após o retorno.

E é isso! Espero que este texto tenha lhe ajudado a entender o cenário atual sobre a doença no Reino Unido. Tem algo a acrescentar? Comente aqui embaixo!

Arrivederci! E se cuide.


Imagem de destaque:
Coronavírus em imagem gerada por Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Photo by CDC on Unsplash
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