Há exatos 5 anos, eu embarcava em um voo rumo à Londres, partindo de Lisboa. Lembro até hoje do diálogo ligeiramente ríspido com o funcionário da imigração na saída:
— Para onde o senhor vai? — disse o funcionário.
— Para Londres. — respondi, ansioso e sem energia.
— É que Londres tem 6 aeroportos!🤨
— Luton. 😬
Com cara de frustração, ele me mostrou a direção da saída.
Depois de cerca de 7 meses na capital portuguesa, estava decidido a tentar algo diferente, já que por lá a experiência de trabalho não havia sido satisfatória.
Me lembro até hoje da despedida chorosa no aeroporto lisboeta, depois de ter esperado ali por algumas intermináveis horas com um casal de amigos gaúchos que pouco tempo depois se mudaria para Munique, na Alemanha.
Antes disso, em outubro de 2018, havia passado por Londres para algumas entrevistas, então minha chegada no último dia do mês seguinte era já bastante planejada.
Minha estadia em Portugal não foi muito positiva financeiramente (traduzindo: salário baixo), então minha jornada em Londres começava com dinheiro “curto” e, ainda bem, um emprego para começar a estruturar novamente a minha vida.
Já na chegada em Londres, descobri que uma das duas pesadas malas estava com uma rodinha quebrada, pra tornar a experiência mais “divertida”.
No aeroporto de Luton, à época bem menos conectado e de difícil navegação, penei por mais de uma hora andando pelo grande estacionamento, com todos os carros recusando pegar a minha corrida (já tinham aceitado outro passageiro).
Ao finalmente chegar no hotel, descobri porque aquele local em uma cidadezinha de Hertfordshire era menos caro: uma verdadeira espelunca, com chão de carpete vermelho desbotado, quase tudo velho e sujo por onde olhasse e, pra melhorar, um chuveiro que não funcionava e um vaso sanitário que fazia tremer o piso de madeira a cada descarga.
Estava ali por ser próximo do escritório da empresa para a qual trabalharia, mas não aguentei ficar mais do que uma semana no hotel.
Logo depois, passei por dois quartos de AirBnb durante o mês de dezembro até que, em janeiro de 2019, consegui me mudar para um apartamento alugado em Londres com um casal que conheci através do trabalho.
Começava aí a minha vida na capital britânica.
Pouco tempo depois, comecei a sair para conhecer pessoas novas e, em poucas semanas, estava em um relacionamento ligeiramente conturbado que durou 4 anos, 1 mês e 4 dias, contados da primeira vez que nos conhecemos. Aparentemente, eu gostava ainda mais da Itália do que imaginava. 😂
Sim, sou ótimo para memorizar datas importantes.
Neste primeiro emprego, permaneci por quase dois anos, mas queria procurar novos desafios (e salários) e passei por mais dois locais, sendo que estou na última delas há quase um ano e meio.
Apesar disso, acho que me adiantei um pouco na história, então vale dar uma revisada do início…
2018
Em agosto de 2018, visitando a capital inglesa, estava tão empolgado que até mesmo as meias molhadas pela chuva gelada eram motivo de alegria.
Em outubro, em uma viagem de 4 dias (de sexta à segunda-feira), fiz 3 entrevistas de emprego e, poucos dias depois, recebi o sinal verde em duas delas. Que felicidade!
Ainda naquele ano, depois de três semanas de trabalho em dezembro, consegui visitar meus amigos em Munique. Foi bem no período de Natal, com a cidade coberta de neve.
Foi também neste primeiro mês na terra da Bethinha que tive um diálogo com o dono de um dos AirBnbs, que me destravou de vez no país.
Logo nos primeiros dias, meus ouvidos treinados para o inglês americano sofriam com o sotaque inglês. Creio que entendia uns 40% do que me diziam e isto me gerava muita ansiedade.
Conversando com o senhor do AirBnb, mencionei que talvez precisaria entrar em algum curso, pois estava com muitas dificuldades para entender os locais.
Ele me deu o seguinte conselho: permita-se uns 4 meses, peça para que repitam quando necessário e siga a sua vida. Se depois disso as coisas ainda não tiverem melhorado, procure ajuda.
Aquilo me deu uma tranquilidade muito grande. Somava-se a isso os inúmeros sotaques estrangeiros que ouvia todos os dias no escritório, que me mostravam que, no fim, eu era só mais um imigrante entre muitos outros e todos enfrentavam um desafio similar.
2019
No primeiro ano de fato no primeiro emprego, conheci muita gente de todo canto do mundo.
Lembro até hoje de que contabilizavam, pelo menos, 30 nacionalidades diferentes no quadro de colaboradores.
Em um mapa em um quadro de cortiça, até no Brasil havia um bom número de alfinetes.
Foi ali que conheci pelo menos uma dúzia de amigos, com destaque para alguns portugueses e brasileiros. Uma das minhas melhores amigas atualmente vem de lá!
Voltei pela primeira vez ao Brasil em abril, revendo amigos em São Paulo e a família, em Minas.
Fiz também minhas primeiras viagens internacionais a partir de Londres, tendo revisitado Portugal (Faro, Lisboa e Porto) e, mais tarde, Irlanda, Espanha (Barcelona) e, localmente, Cambridge.
2020
De início, tudo parecia um ano bem normal, mas a ameaça da dita pandemia de covid-19 me gerava bastante preocupação.
Comecei a trabalhar de casa de forma permanente quando as coisas pioraram, em uma rotina que me desgastou bastante.
Em janeiro daquele ano, havia me mudado para um novo local, dividindo um apartamento com 3 pessoas.
A rotina de conviver por praticamente 24 horas por dia com as mesmas pessoas se tornou bem desgastante depois de alguns meses.
O namoro era “wireless”, dadas as restrições do governo que proibiam a convivência entre moradores de casas diferentes.
Eu estava longe da família, com um relacionamento quase inexistente e sem poder sair muito de casa. Por mais que fosse grato por estar com saúde, foi um período bem difícil.
Com as limitações de viagem, conheci mais destinos locais. Visitei Oxford e Rye! Além disso, também conheci Pisa antes da pandemia e, quando as autoridades permitiram, Amsterdã e Paris.
2021
Já cansado de dividir apartamento, procurei um local para morar sozinho.
Voltava o relacionamento normal, as viagens se tornaram mais possíveis e a vacina para covid-19 era distribuída para mais pessoas.
A esperança ia voltando aos poucos para a mente de todos.
Fechei o ano de viagens em Curitiba, mas antes conheci Funchal (na Ilha da Madeira) e Helsinque, além de alguns passeios mais próximos nas inglesas Bath, Bristol, Canterbury, Cirencester e Colchester. Visitei ainda a capital do País de Gales, Cardiff.
2022
Em 2022, entrei na terceira empresa desde que me mudei pra cá.
Fora isso, a vida esteve razoavelmente tranquila, sem tanta ansiedade com a pandemia como nos anos anteriores.
Foi um ano muito especial, pois recebi a visita da minha irmã e do meu cunhado em Londres e depois fomos juntos à cidade de Liverpool e também conhecemos Roma e o Vaticano.
Consegui visitar os outros dois países do Reino Unido (Escócia e Irlanda do Norte), tendo visitado Edimburgo, Glasgow e Belfast. Fechei o mapa da terra da rainha!
Também conheci a cidade de Windsor, que visitei poucos meses antes da morte da rainha Elizabeth II. Ela foi sepultada nos arredores do castelo de Windsor (em uma capela).
Conheci mais alguns locais dora do Reino Unido, tendo finalmente visitado Madri (e de quebra Toledo, que fica bem perto da capital espanhola).
Também fiz a primeira viagem internacional fora da Europa (Nova Iorque), em outubro.
2023
Depois de um término doloroso de relacionamento, decidi que iria preencher meu ano com passeios, atividades culturais e outras coisas que me fizessem bem.
Além de visitar as cidades belgas de Bruxelas e Bruges no mês de abril, passei o final de semana do meu aniversário em Paris para visitar a os parques da Disney de lá.
Continuei conhecendo a Inglaterra, com passagens por Brighton (com Seven Sisters e tudo!), Stratford-upon-Avon (terra do Shakespeare) e York.
Voltei a Portugal, visitando novamente Lisboa e Porto, mas também passando por Sintra, Fátima e Viana do Castelo (com um pulo na vila onde meus antepassados paternos nasceram).
Já no segundo semestre, me apaixonei por Copenhague e Viena, ambas igualmente lindas e caras.
Prometo trazer logo, logo os roteiros de cada uma destas cidades!
Conclusão
Nestes 5 anos, chorei e sorri como nunca antes na minha vida.
O amor da minha vida tinha prazo de validade e, honestamente, foi bom ter durado apenas pelo tempo que fazia sentido.
Teve até fofoca de parente durante a pandemia inventando que eu não estaria bem de saúde (e, aparentemente, estaria escondendo isso dos meus pais), causando preocupação desnecessária na minha família.
Vivi a solidão durante a pandemia, o isolamento e os desafios de me sentir em casa bem longe do meu país de origem, sendo lembrado quase todo dia pela vida de que você jamais pode considerar sua vida atual como “garantida”.
Já fiz planos para morar aqui por 2 anos, por todo o tempo que fizesse sentido e, atualmente, sei lá quanto tempo.
Me sinto muito privilegiado (e agradecido) pelas experiências que já vivi, pelo que aprendi nessa caminhada já bem longa em solo inglês e por tudo que ainda viverei.
Hoje, só quero que minha vida em Londres seja como “amores da vida toda” e tenha a duração que fizer sentido.
Em 2023, Londres ainda me arranca sorrisos, mesmo naqueles dias frios em que meu rosto está quase congelando na rua. E é sobre isso!
Obrigado pela sua companhia até aqui!
Arrivederci!
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