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Conhecendo a Abadia de Westminster, em Londres

Viagens06/11/2022

Hoje eu gostaria de compartilhar contigo um pouco do que aprendi fazendo um tour privado pela Abadia de Westminster, em Londres.

Diferente dos passeios que geralmente faço, hoje fiz o tour acompanhado de uma guia particular, que nos levou por várias áreas dentro das dependências da igreja, em percurso de cerca de duas horas.

Contexto

Há algumas semanas, o GetYourGuide, famoso site de atividades turísticas e passeios, lançou uma série de experiências novas em seu site.

Para promovê-las, eles divulgaram um programa em que parceiros (pessoas que possuem links patrocinados com eles) poderiam testar algumas destas experiências praticamente de graça.

Ao navegar pela lista de atividades, encontrei algumas em Londres e decidi visitar a Abadia de Westminster, um local que já há muito tempo gostaria de conhecer.

Contexto histórico

Dentro de uma igreja em estilo gótico, vemos um espaço com piso em mosaico. Ao fundo, um painel dourado, com algumas esculturas e pinturas. Logo em frente, uma mesa coberta de tecido verde. É o altar desta abadia.
O altar da Abadia de Westminster.

Por volta de 960 d.C., um monastério existia no lugar onde hoje vemos a abadia, tendo como patronos o rei Edgar e São Dunstano.

Nos anos de 1040, o rei Edward (posteriormente, “Santo Eduardo, o Confessor”) construiu nas redondezas o palácio real que seria sua residência oficial. Junto desta obra, decidiu também ampliar o monastério, construindo uma igreja de pedra, de São Pedro o Apóstolo.

Este templo ficou conhecido como “West minster”. “Minster”, aqui, faz referência a igrejas que fazem parte de monastérios. Ela ficou conhecida assim por ficar a Oeste (“west”) da Catedral de São Paulo, que era conhecida como “east minster” (easter = leste).

Ela foi consagrada em 1065. Pouco depois, o rei (que estava doente e nem participou da cerimônia) faleceu e foi ali sepultado. É possível ver um pouco desta antiga igreja nos arcos do subsolo.

Por volta da metade do século XIII, o rei Henrique III resolveu reconstruir a igreja em estilo gótico, sendo consagrada em 1269. Ela foi idealizada para servir de local para cerimônias de coroação e também para sepultamento de monarcas. O rei morreu antes que a nave fosse concluída, fazendo com que ela não fosse feita por um longo tempo.

Vale citar que, desde William O Conquistador, praticamente todos os monarcas foram coroados aqui.

Destaques

Túmulo do Soldado Desconhecido

Em um piso de pedra, vê-se uma placa escura com escritos em dourado. A estrutura é margeada por flores vermelhas de centro preto.
Túmulo do Soldado Desconhecido (Unknown Warrior), na Abadia de Westminster.

Após o fim da I Guerra Mundial, muitos soldados britânicos mortos em combate no continente não foram reconhecidos ou, em muitos casos, sequer localizados.

O túmulo de um soldado foi encontrado em 1916 em Armentières, na França. Em cima do local do sepultamento, havia uma cruz com os dizeres: “um soldado britânico desconhecido”.

O reverendo David Railton, que encontrou o túmulo, escreveu em 1920 para o Decano de Westminster. A partir daí, a ideia do túmulo em homenagem aos soldados que morreram na guerra ganhou força.

Eles trouxeram 4 corpos, cada um de diferentes regiões francesas, escolhendo um aleatoriamente ao final. O sepultamento ocorreu em 11 de novembro de 1920.

Até hoje, muitos líderes mundiais que visitam o país costumam passar por lá e deixar uma coroa de flores.

Além disso, mesmo em cerimônias de grande poder simbólico, como no funeral da rainha Elizabeth II, aqueles que entram na abadia jamais podem passar por cima da tampa do túmulo, que fica no corredor da igreja.

Dica

As flores vermelhas em volta do túmulo do soldado desconhecido são as poppies, símbolo muito popular por aqui para homenagear os soldados que já participaram de guerras pelo Reino Unido. Há uma data muito importante sobre isso, o Remembrance Day. Aqui no blog, já trouxe texto sobre o tema. Confira!

Cadeira/Trono da Coroação

Em uma sala de pedra em estilo gótico, temos um piso todo quadriculado em preto e branco. Ao fundo, no centro, um trono em madeira e detalhes dourados, protegido por uma estrutura de tecido vermelho.
Trono da Coroação (Coronation Chair), na Abadia de Westminster.

Em 1296, o rei Edward I trouxe a “Stone of Scone” (uma pedra em formato de paralelepípedo) da Escócia para a Inglaterra.

Para abrigar a pedra, um trono/cadeira de carvalho foi construído entre 1300 e 1301. Com a pedra em uma parte inferior do trono, o monarca teria uma forma de demonstrar que Inglaterra e Escócia estavam sob seu controle.

O trono possui diversos detalhes florais, de pássaros e outros desenhos pintados sobre um folheado de ouro, além de quatro leões em sua base, também folheados.

No decorrer dos anos, especialmente nos séculos XVIII e XIX, vários atos de vandalismos foram cometidos, seja por visitantes ou por estudantes da Escola de Westminster. Por conta disso, há diversas gravações esculpidas nas costas da cadeira.

Há também uma marca feita pelas Suffragettes, durante um ataque à bomba em 1914.

Desde 1308, este trono tem sido usado nas cerimônias de coroação de todos os monarcas britânicos, apesar de que o ano exato em que o rei começou a ser coroado nela especificamente é incerto.

Já ocorreram 38 solenidades de coroação na basílica, envolvendo todos os monarcas desde então, exceto por 2, que jamais chegaram a ser coroados.

Quadro do rei (primeiro retrato)

Dentro de uma igreja gótica, vemos um quadro de moldura e fundo dourados, que apresenta o retrato de um rei em seu trono de coroação. O monarca segura o cetro e a orbe. Seu manto é vermelho e a roupa por baixo parece ser em azul escuro com detalhes em dourado.
Retrato do rei Richard II atribuído a André Beauneveu, na Abadia de Westminster.

Próximo do trono de coroação, temos uma pintura de um monarca em sua cadeira de coroação, vestindo os trajes da cerimônia oficial de ascensão ao trono, enquanto segura a orbe e o cetro, símbolos de sua posição de poder.

Datada dos anos de 1390, a pintura é um retrato contemporâneo do rei Richard II atribuído ao pintor André Beauneveu.

É considerado o primeiro retrato de um monarca britânico, feito de fato quando este posava para a foto.

As pinturas anteriores eram geralmente feitas baseando-se em máscaras de gesso feitas no rosto do monarca após seu falecimento.

Lady Chapel

Em uma sala ladeada por móveis de madeira escura ricamente esculpidos, uma multidão assiste a tudo. O teto é todo esculpido, em um formato que lembra leques. No topo, de cada lado da sala, uma linha de bandeiras heráldicas de diversas cores.
Lady Chapel (Capela da Virgem Maria), na Abadia de Westminster.

Esta capela da abadia foi construída a pedido (e sob patrocínio) de Henrique VII entre 1503 e 1516, mas o rei morreu antes de sua conclusão.

Como o nome diz, é dedicada à Virgem Maria, sendo comum em muitas igrejas de grande dimensão.

De estilo gótico, seu teto tem “abóbodas” em formato que lembra leques.

Entre os 15 reis e rainhas ali sepultados, estão Elizabeth I e Mary ”Queen of Scots”, por exemplo. Além destas, temos também o próprio Henrique VII e sua esposa, Elizabeth de York.

A partir de 1725, e até os dias de hoje, esta capela é a “sede” da “Order of the Bath” (que foi estabelecida no mesmo ano).

Esta ordem de cavaleiros leva seu nome não por conta da cidade inglesa de Bath, mas porque a cerimônia que empossava novos cavaleiros incluía um banho (”bath”) de purificação, ritual não mais realizado desde a época de Charles II.

A cerimônia para atribuir o título de cavaleiro a novos membros ocorre mais ou menos a cada 4 anos.

Se você visitar a capela, aliás, poderá ver ambas as laterais com fileiras de banners heráldicos de cada membro.

Curiosidades

Há cerca de 3300 pessoas sepultadas no local, além de muitos memoriais (quando a pessoa foi apenas homenageada, mas enterrada em outro lugar).

Entre os destaques, podemos também citar que há cerca de 600 monumentos e placas de parede.

Durante o tour, a guia me contou sobre diversas curiosidades. Selecionei algumas das principais, que reproduzirei abaixo:

O túmulo com vaga extra

Em uma sala gótica ricamente decorada, um túmulo com partes em cinza e preto, decorado com brasões. Há duas estátuas deitadas no topo do túmulo, mas há espaço para uma terceira.
Um dos túmulos de famílias ricas na Abadia de Westminster. A seta branca aponta o espaço não ocupado.

Muitas pessoas endinheiradas da nobreza pagaram para ter um espaço de sepultamento na abadia.

Entre eles, há um túmulo com espaço suficiente para três pessoas, mas ocupado somente por duas (como se vê nas estátuas deitadas sobre ele).

Diz-se que um endinheirado construiu o espaço para ele e sua esposa, deixando de antemão uma vaguinha para a segunda esposa (após o falecimento da primeira), mas este terceiro sepultamento jamais ocorreu ali.

Construída em partes

Embora a maioria da abadia tenha sido erguida entre os séculos XIII e XVI, as torres do lado oeste foram construídas entre 1722 e 1745.

Deixem Shakespeare descansar!

Há na abadia uma seção com uma grande quantidade de placas homenageando poetas, a maioria deles não enterrada ali.

Alguns escritores britânicos, mesmo tendo sido originalmente enterrados em outros locais, foram posteriormente exumados e sepultados ali, o que causou polêmica vez ou outra.

No caso de Shakespeare, porém, as coisas seguiram outro rumo: ele foi sepultado na mesma cidade onde nasceu, Stratford-upon-Avon, na Inglaterra.

Nascido em 23 de abril de 1564, morreu no mesmo dia no ano de 1616, sendo sepultado na Holy Trinity Church (“Igreja da Santíssima Trindade”), mesmo local onde foi batizado.

Para evitar que movessem seus restos mortais para qualquer outra área, ele teria pedido para que ali colocassem uma placa, até hoje presente em cima do local de sepultamento, com algumas rimas (em tradução livre): “Bom amigo, pelo amor de Jesus abstenha-se / a cavar as poeiras aqui guardadas. / Abençoado seja o homem que deposita estas pedras, / e amaldiçoado seja aquele que mova meus ossos [daqui].”

Fato é que diferentes pessoas desistiram da ideia ao ler a mensagem, deixando seu túmulo intacto na cidade que tanto amava.

Porta mais antiga do Reino Unido

Em uma sala muito antiga de pedra, temos uma porta rústica de madeira escura. Há detalhes simples e grandes de metal, incluindo um cadeado.
A porta mais antiga do Reino Unido, na Abadia de Westminster.

Diz-se que a porta mais antiga do Reino Unido fica na Abadia de Westminster, mais especificamente em uma parte mais velha da construção, em um dos lados de uma passagem que leva à área chamada de Chapter House.

Segundo estudos, os troncos de carvalho teriam sido cortados por volta do ano de 1032, com a porta anglo-saxônica tendo sido feita nos anos 1050, durante o reinado de Eduardo, o Confessor.

Salva por pouco

A Abadia quase foi outra das vítimas da Dissolução dos Monastérios, movimento introduzido pelo rei Henrique VIII em 1536, depois que o monarca rompeu com a Igreja Católica e fundou a Igreja da Inglaterra para casar-se novamente, o que a Igreja de Roma havia proibido.

A razão para que ele não tenha destruído pelo menos parte de suas instalações ou confiscado suas riquezas teria sido o fato de que seus pais já haviam sido ali sepultados.

Por conta disso, a igreja foi poupada, tornando-se templo anglicano.

Quer conhecer a abadia também?

Se você também quiser visitar a Abadia, aliás, recomendo o tour privado que fiz. Se estiver fora do seu orçamento, porém, há diversas opções, incluindo tours comuns de grupo.

Para fazer o mesmo tour que eu, basta acessar este link*. Na lista do link, você também poderá ver outras opções na abadia e nas redondezas, com diferentes faixas de preço. Um bom exemplo seria este*, por um preço mais baixo.

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Imagem de destaque:
Fachada oeste da Abadia de Westminster, em Londres.
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